| Quando meu filho
precisa de um pai
Ontem fiquei sabendo da morte do filho de um conhecido meu, moleque
de pouco mais de 18 anos, morto em acidente de trânsito. Confesso
que a
sensação foi algo como: "ufa, essa passou perto!"
Se você também é pai
concorda comigo. Morte de filho, nem pensar! Antes eu do que ele.
Câncer,
acidentes, drogas, qualquer outra desgraça moderna? Sai fora!
Hoje peguei um trecho de estrada e me apliquei a pensar nisso.
E
cheguei a triste conclusão que tenho sido um pai mais preparado
para os
momentos em que meu filho não precisa de mim. Para os momentos
em que ele
mais precisa, parece que pulo fora.
Não há pai que se negue a chorar a morte de um filho,
e deve doer
muito. Se ele foi um pai "daqueles", fica a dor. Mas se
ele foi um pai
"da-que-les", além da dor ficam os ressentimentos.
E nessa hora é tarde. Não
há pai que queira seu filho metido em drogas ou álcool.
Mas por que tantos
pais só se mexem depois que a desgraça acontece? Não
há pai que não queira
que sua filha case feliz, com o cara certo, e que lhe dê netos
na hora
certa, sem crises. Mas por que tanta gente não sabe se chora
pela filha ou
festeja pelo neto que entra em cena antes das alianças? Não
há pai que
sequer admita dúvidas quanto ao amor que tem pelo filho.
Mas por que tantos
pais vivem guardando esse amor só para quando é tarde
demais?
Onde estava o pai quando a filha (e mais alguém) arrumaram
um neto
pra ele? Onde deveria estar esse pai? Por certo não seria
dentro do motel,
mas muito antes da filha ir pra lá com alguém o pai
por certo esteve ausente
em alguma cena, em alguma passagem. Onde estava o pai quando o filho
resolveu experimentar um fuminho "daqueles"? Ou quando
resolveu tomar um
porre? Por certo não seria na rodinha de fumo, nem na mesa
de um bar. O pai
fez falta em algum momento antes. Ou sua presença foi inoportuna
em alguma
hora, dando algum mau exemplo.
A hora certa de um pai se fazer presente chega muito antes das
desgraças. É quando se pode moldar o caráter
do filho (ou da filha), é
quando ele ainda é um satélite dos pais. Como Deus
diz, pela pena de
Salomão: ensina a criança (enquanto é criança)
no caminho em que deve andar,
e quando crescer (no gradativo processo de deixar de ser criança)
jamais se
desviará dele. Curioso é que Salomão deve ter
aprendido essa lição mais pelo
sofrimento do que pelo acerto. É certo que ele teve muitos
e muitos filhos,
e embora não saibamos muito de seu desempenho como pai, podemos
antever que
não deve ter sido grande coisa, pelo relato do comportamento
de seu filho
Roboão, seu filho e sucessor no trono.
E quando meu filho precisa de mim?
A primeira conclusão a que chego é: nem sempre meu
filho precisa de
mim quando ele pede minha presença ou me valoriza.
Como assim?
Durante o curto tempo em que você é o herói
do seu filho (ah, bons
tempos... adolescência é dose...), seu filho pode até
gostar de dizer que o
pai é um empresário de sucesso, que tem um carro assim
ou assado. Mas isso
dura pouco. É tão passageiro quanto os tênis
que ele usa nos pés - novos
hoje, amanhã estraçalhados. É óbvio
que tudo isso dá segurança, esteio, mas
o que fica mesmo é quem você é para ele, não
o que você tem. Do mesmo jeito
que nós descontamos nossas frustrações comprando
coisas para mostrar aos
vizinhos, eles podem estar se gabando das coisas que o pai tem e
lhes dá,
como uma espécie de compensação pela falta
de um pai que também lhes supra o
que dinheiro não compra.
Outra coisa é quando seu filho quer brincar com você,
jogar com
você. Esta é uma das maiores armadilhas. Quantas e
quantas vezes eu fui,
brinquei, joguei (o que é certo e necessário). Mas
a medida em que a minha
língua alcançava o meu pé (inevitavelmente
muito antes de meu filho esboçar
qualquer sinal de cansaço), eu me dava por satisfeito com
aquela "amostra".
Encerrava a sessão de lazer, cortava a conversa e dizia:
"tenho que
trabalhar". E se houvesse muita insistência, ai dele...
O que fica depois de terminada a cena? Qualquer filho esquece
o que
o pai tinha e o que o pai fazia. Mas lembra-se por toda a vida de
como o pai
fazia, de quem o pai era, de como ele o tratava, de com que cara
ele fazia
as coisas. Igualzinho a você, lembra?
Quando seu filho pede sua presença ele quer brincar, é
óbvio, como
qualquer criança. Mas o que ele vai guardar não é
o resultado da
brincadeira. Ele vai guardar pra sempre quem você é.
E o que você é faz a
cabeça dele. E como.
E isso me leva a segunda conclusão: meu filho jamais vai
me pedir
muitas das coisas que ele realmente precisa.
Eu me explico.
Alguma vez um filho pediu limites a seu pai? Olha, pai, estou
saindo
com a galera... a que horas tenho que voltar? Ou então sua
filha: olha pai,
tem um carinha que quer namorar comigo. Que você acha? Você
jamais vai ouvir
algo assim. Mas vai ter que agir sempre.
Esqueça de esperar pela iniciativa de seu filho em lhe
perguntar
certas coisas, ou lhe pedir ajuda em outras. Por duas razões
muito fortes:
ele não tem a mínima idéia do que precisa.
Ainda não tem experiência
acumulada. E vai acabar decidindo na hora. Bater na bolado jeito
que ela
chega;
• pais e mães são de outro planeta quando ele
passa de uma certa idade.
"Como é que meu pai pode gostar daquelas músicas,
cara, fala sério!" (ou
traduzindo na língua dos chats e bloggers deles: "Cum
é q mo pa po gosta
daklas muzk... kra... fla seryu!"). Os pais falam e escrevem
em português,
já os amigos o fazem no idioma dele (ultimamente isso tem
tomado dimensões
maiores). Muito mais fácil deles se falarem.
Enfim, seu filho não pede, mas precisa. Não quer,
mas precisa. Vai
espernear, mas precisa. Ele precisa de limites, de um pai que diga
sim e
diga não. De um pai que o encaminhe no trilho que ele nem
sequer sabe para
que serve. De um pai que se meta na vida deles na medida do necessário,
nem
mais, nem menos.
E você e eu, pais que não sabem nem como, nem quando?
Nós precisamos
do pai eterno, o pai da luzes. Precisamos aprender de Deus o caminho
a
ensinar ao filho, para que ele jamais se desvie dele.
Uma coisa é certa. De uma hora para outra nossos filhos
começam,
querem e precisam tomar decisões sozinhos. Nessas horas,
melhor que saibam
qual o caminho que devem seguir. Se for o caminho certo, Deus diz
que jamais
se desviarão dele. Se for o errado... danou-se. E você,
definitivamente, não
estará na cena.
E tem aquela piada que fala que Deus, após ter expulsado
Adão e Eva
do paraíso, disse a algum anjo que fazia cara de "e
agora, chefe?": "Calma,
eles terão filhos!"
Texto biblico utilizado: Proverbios 22:6
Carlos Sider
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